sábado, 14 de outubro de 2017

Confessionalidade - Aula 3 - A Estrutura Organizacional da CFW

Aula 03
A Estrutura da Confissão de Fé de Westminster

Introdução
Antes de adentrar aspectos do próprio texto da CFW, precisamos fazer uma caminhada panorâmica sobre a arquitetura da sua estrutura textual. O estudante da CFW deverá compreender as grandes avenidas que ela persegue para poder penetrar nas ruas e vielas de seus detalhes.
Aproveitaremos esta aula para traçar estes principais caminhos centrais trilhados pelos teólogos de Westminster e utilizar isto como uma ferramenta para nossa melhor compreensão.   

O Ponto de Partida é a Escritura
Propositadamente, o primeiro capítulo da CFW trata da Escritura, dizendo o que ela é a qual a sua natureza e origem divina.
Toda a vida humana deve ser avaliada e desenvolvida tendo a Escritura como fonte central e somente ela. Este ponto de partida é a pedra angular de toda a Confissão, que chega a estabelecer e falar de si mesma como derivada e subserviente à Palavra de Deus.
A autoridade da Escritura não é derivada, isto é o que os teólogos chamavam de “Norma Normans” e isto faz da Escritura a Regra de Fé e Prática absoluta, cuja autoridade deriva da sua origem divina. O princípio de que a Escritura é de origem divina é um princípio que dá à Escritura o elevado status de Palavra de Deus.
Desta forma, a Escritura é a fonte de todo o conteúdo do CFW, o único tribunal que realmente submete a consciência do cristão, inclusive o tribunal que julga a própria CFW.

O Conceito de Soberania de Deus
Depois de estabelecer o principio fundamental da autoridade da Escritura como a Palavra de Deus e o ponto de partida para todo o conteúdo sobre a vida e o relacionamento com Deus, a segunda avenida norteadora da CFW é o conceito de soberania de Deus.
Soberania Livre
Um dos aspectos da soberania de Deus apresentada na CFW é a sua liberdade de agir e pensar. A escolha soberana e livre de Deus é absolutamente tomada para explicar quem é Deus e como age. O poder de Deus é, portanto regulado somente pelo seu próprio arbítrio e por nada fora dele mesmo.
Soberania Absoluta
A decorrência necessária da primeira característica da soberania livre é a sua absoluta determinação. Desta forma, os teólogos de Westminster dispuseram conduzir a Igreja a confiar absolutamente no fato de que Deus realiza a sua vontade de forma soberana, sem ser impedido por nenhum poder deste mundo ou do outro.
Soberania Amorosa
A soberania livre a absoluta de Deus age em favor de fazer o bem às suas criaturas, na medida em que ele é o Criador e Providenciador de todo o bem para todas as suas criaturas.
Essa visão do amor de Deus é primordialmente proposto em uma visão de como Deus se inclina para ver o que se passa na terra, com cuidado formidável sobre a vida, principalmente dos homens que ele criou para sua glória.

O Pecado Humano Como o Problema a Ser Resolvido
A condição do homem caído é vista na CFW como uma situação de grande importância e o grande problema a ser vencido na relação do Criador com as criaturas, especialmente o homem.
A Queda é Humana
Embora a CFW não esconda sua visão de que alguns dos decretos eternos de Deus envolveram a soberania divina de permitir até mesmo o pecado de suas criaturas morais, ela dispõe-se a deixar claro que o pecado humano é resultado da estultícia e da corrupção do coração humano.
A Profundidade da Queda
Ao tratar da Queda, a CFW trabalha com o fato de que o homem foi totalmente atingido em todas as faculdades de sua existência total. Em outras palavras, a visão dos teólogos de Westminster era de que a depravação do homem era total e não parcial como criam os católicos e alguns outros ramos arminianistas.
A Extensão da Queda
Ainda dentro do conceito de depravação total, a CFW também trabalha com o fato de que toda a humanidade foi atingida e isto implica dizer que a melhor maneira de compreender o mundo é entender que tudo está caído e que todos os homens são, naturalmente maus e dispostos a se afastar de Deus.

A Obra do Mediador
Uma porção muito importante da CFW é o capítulo VIII que trata a Pessoa e Obra do Mediador no seu ofício de salvar o homem caído.
Cristo é definido em termos de sua natureza humana e divina, especialmente para tratar da sua obra de Mediação que nasce desta dupla condição, sine qua non ele não poderia realizar a sua obra.
Uma das principais noções teológicas da CFW é a percepção de que ela é formalmente baseada na teologia Nicena, dos primeiros séculos do cristianismo. A dependência do pensamento cristológico do século IV é bastante evidente, especialmente nos termos empregados para as definições das duas naturezas de Cristo e sua história como Verbo Encarnado.

O Sistema de Salvação Calvinista
Outro aspecto estrutural da CFW que serve como uma das avenidas de abordagem é a sua percepção calvinista da doutrina da salvação (soteriologia).
Especialmente trilhando o caminho da Ordo Salutis, segundo o princípio calvinista, a CFW traça a obra de Deus na salvação e resgate da humanidade como sendo uma prerrogativa primordial das pessoas divinas, nas suas diversas economias de ação.
Desde a chamada do crente, até à sua santificação e glorificação é uma obra controlada pela soberania divina, baseada no seu primordial amor pela obra das suas mãos.

A Vida Religiosa e a Vida Social
A união das duas esferas, tanto a religiosa como a social é uma das percepções de mundo mais revolucionárias propostas pela CFW. Ela não somente discute as coisas da Igreja, mas também tem observações a fazer sobre o que acontece na vida da sociedade.
Embora a CFW defenda enfaticamente que o trabalho da Igreja seja gerir a vida religiosa, ela não afasta a necessidade de que os homens da igreja sejam capazes de servir de fonte para a vida social, baseada nos princípios da Escritura.

Conclusão
O que aprendemos olhando estas grandes avenidas é que a Confissão de Fé procura fazer o trabalho de percorrer grandes caminhos para o entendimento da vida humana e o seu relacionamento com Deus como um todo, ela promoverá algum entendimento mais aprofundado nas pequenas vielas que derivam das avenidas.
Outro ponto importante que precisa ser notado na CFW é que ela tem uma percepção de que Deus vem buscar o ser humano e dispõe o coração humano a encontra-lo. Desta forma, ela causa uma pista dupla e uma necessidade de que o homem responda ao amor de Deus com devoção e piedade.



domingo, 8 de outubro de 2017

Confessionalidade - Aula 2 - As Origens da Confissão de Fé de Westminster

Aula 02
As Origens da Confissão de Fé de Westminster

Introdução
O ato de confessar a fé é ancestral, remontando à própria história da humanidade. A Igreja Cristã o faz desde o tempo de Jesus e seus apóstolos e, tornou-se especialmente importante após a morte destes, pois a igreja precisa se identificar diferente de outras religiões.
Confissões de Fé são declarações sucintas sobre o que se crê e afirmações contundentes contra a heresia e o engano de outras percepções de mundo. Quando um crente confessa a sua fé, ele se posiciona doutrinariamente e diz de que lado deseja ficar nas questões de fé.
Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo.  Porque com o coração se crê para justiça e com a boca se confessa a respeito da salvação (Romanos 10.9-10).
Por isto é que os antigos se organizavam em torno de declarações que lhes oferecesse consciência de unidade uns com os outros e coibissem a apostasia de outros. Além disto, as confissões serviriam como elemento propagador da fé.
Declarações de fé foram elaboradas por indivíduos, como no caso da Martin Bullinger que compôs a Segunda Conifssão Helvética para a igreja Suíça, por associação de teólogos, como Lutero e Melanchton que foram os principais produtores da Confissão de Augsburg, Ursino e Oleviano contratados pelo Rei Frederico para produzir um Catecismo para ensino nas escolas do seu reino, na Alemanha.

Os Antecedentes Escoceses da  CFW 
Para se conhecer um pouco sobre o nascedouro da CFW, precisamos retroagir a um século antes e voltar o nosso olhar para a Escócia, a terra do grande John Knox.
Aluno de Calvino, Knox voltou para  a sua terra natal com a finalidade de livrar a igreja do erro romanista. Ali já havia uma grande semente da Reforma, por causa do movimento do ilustre Patrick Hamilton, que já em 1527, havia começado a propagar as lições dadas por Lutero.
A Revolução Escocesa se originou como um movimento religioso das classes populares que desejavam exercitar livremente a sua crença nas Sagradas Escrituras. Knox será o cavaleiro desta batalha, levando a Escócia à criação da sua Primeira Confissão de Fé em 1560.
Até então, mesmo a igreja da Inglaterra ainda tinha o seu governo centralizado na figura do Rei e os Escoceses compreendiam que o governo da Igreja era local, pela instituição de homens de Deus que serviriam à comunidade, portanto afirmava a autoridade eclesiástica, não do Rei, mas sim dos presbíteros. Por isso, a igreja da Escócia passou a se chamar: Presbiteriana.
Este movimento presbiteriano deu origem à ideia de que a autoridade deveria repousar não sobre o poder de uma pessoa, mas de um colegiado, por isso, sob a liderança de Knox, a igreja Presbiteriana da Escócia reuniu sua primeira assembleia geral, como um parlamento em 1560 e arquitetou sua primeira Confissão de Fé e seu Primeiro Livro de Disciplina, regulando assim como funcionaria a unidade da igreja da Escócia.
A reação do trono inglês foi se tornando mais clara com o passar do tempo, pois esta liberdade religiosa escocesa começou a ser considerada um perigo para a unidade do Reino Unido. Vários governantes tentaram impugnar a liberdade dos escoceses de manterem sua igreja livre da ingerência do estado e do governo temporal do Rei.
Essa posição de liberdade pretendida na Escócia foi se tornando também desejada para a Igreja de todo o reino, que não somente nos assuntos religiosos, mas até mesmo na administração da vida do país, desejava uma certa divisão do poder real. Assim, foi se fortalecendo a posição do Parlamento na Inglaterra, especialmente no período do Rei Carlos I.
Naqueles dias, a Igreja da Inglaterra era controlada pelo Rei, que detinha o poder temporal e a autoridade religiosa também. O Ato de Supremacia era uma lei que dava ao Rei estes poderes doutrinários sobre a Igreja. A influencia da liberdade escocesa foi cada vez mais se tornando desejada também em toda a Inglaterra, a pressão política contra a posição absoluta do Rei forçou a convocação de uma Assembleia de eminentes teólogos com vistas a estabelecer os padrões doutrinários a serem aplicados na igreja em todo o reino.

Os Grupos Representados na Assembleia de Westminster 
Convocada em 12 de junho de 1643, a Assembleia de Westminster congregou diversos grupos distintos, representantes de pensamentos diferentes sobre a Igreja e o seu governo. A lista original tinha a convocação de 10 dos Lords invleses, vinte membros da Câmara dos Comuns e cento e vinte teólogos dentre os mais proeminentes de todo o reino, de todos os matizes e pensamentos, entre eles, presbiterianos, episcopais, congregacionais, independentes e erastianos.
Muitos declinaram da convocação, temendo o Rei, porque se tratava de um movimento politico contra o poder da coroa também, outros fizeram questão de deixar clara a sua posição contra os abusos do governo central do rei, especialmente os delegados escoceses que se fortaleciam como uma posição de luta contra o poder do Rei sobre a igreja.

Os Presbiterianos
A maior parte dos ministros e líderes leigos da Igreja na Inglaterra tinha uma ideia de liberdade baseada no governo local e não pelo Rei, portanto, eram presbiterianos. Os pastores puritanos, nesta época, uma espécie de vanguarda cultural na Inglaterra, eram também favoráveis a este tipo de governo na igreja.
Os presbiterianos lutavam por uma igreja que fosse controlada não pela autoridade temporal do Rei, mas por uma autoridade eclesiástica local e pela força da Escritura e não da decisão humana. Este era o grupo mais forte representado na Assembleia.

Os Episcopais
Os episcopais entendiam que a unidade da Igreja seria melhor preservada por meio de um governo central de um bispo. Eles seguiam o padrão católico romano de governo, embora não aceitassem mais a autoridade papal sobre a Igreja da Inglaterra. Também não acreditavam no governo do Rei sobre a igreja, mas que deveriam ter um governo realizado por homens da igreja, um bispo central, baseado em Londres, a sede do Reino e da Igreja.

Os Congregacionais
Em numero mais reduzido, estes homens pensavam em uma igreja controlada a parti do desejo da comunidade dos membros locais. Achavam que a autoridade eclesiástica repousava sobre a própria população dos crentes.

Os Erastianos
Estes defendiam que a igreja deveria ser conduzida pelo poder temporal em termos de sua vida como entidade pública a serviço do reino e que o poder dos pastores era meramente o de mestres da religião. Portanto, defendiam o poder do Rei sobre a igreja e a autoridade limitada dos pastores. A força política dos erastianos era grande, especialmente porque tinham o apoio do Rei e de outras autoridades seculares de fora da Assembleia.

Os Independentes
Apenas cinco homens eram considerados independentes, isto é, tinham uma posição livre destes blocos anteriormente citados. Eles eram apoiados por forças políticas externas e militavam primordialmente segundo alguns interesses, especialmente do grande Oliver Cromwell, o bispo central de Londres.
Não se deve pensar que todos esses homens tomaram assento o tempo todo às sessões assembleia. Os episcopais em face de haver o rei proibido a efetivação da assembleia não puderam comparecer, senão uns poucos. Os bispos anglicanos nunca reconheceram as prerrogativas da assembleia. Na reunião de abertura havia presentes 69 deputados e a média de freqüência era entre 60 e 80, segundo as informações do Rev. Guilherme Kerr.
Os interesses externos de outros grupos também influenciavam na participação mais ou menos acirrada de alguns em umas ou outras sessões. Isto tudo era a dinâmica de como os diversos grupos se comportaram durante a construção desta assembleia.

O Funcionamento da Assembleia
Em 01 de julho de 1643 foi pregado o sermão de abertura pelo presidente da Assembleia, o Dr. Twisse, um eminente teólogo de Oxford, que depois da sua morte,  foi sucedido pelo Dr. Herle. Ele estabeleceu a pauta das discussões que haveria de tratar inicialmente de uma revisão dos artigos até então usados na igreja anglicana, os 39 artigos da declaração de fé da Igreja da Inglaterra.
Como a maior parte das correntes representadas na Assembléia tinha uma percepção clara dos problemas do governo da igreja, muitos foram os entraves para que houvesse uma fluência na discussão. Os erastianos e independentes especialmente, travavam as discussões em geral, causando grandes controvérsias, devido aos interesses externos que defendiam.
O Parlamento estabelecera cerca de dez regras bem definidas de regimento interno. Além destas a Assembleia adotou mais outras. Todas as sessões deviam abrir-se com oração, nenhuma proposta seria votada no mesmo dia de sua apresentação. Tudo que se desejasse estabelecer deveria ser baseado nas Escrituras. A mais ampla liberdade de discussão deveria ser assegurada a todos.
Devido as controvérsias geradas, o primeiro ano de discussões não progrediu muito o trabalho próximo ao final do ano de 1644 foi que começaram os trabalhos de escrever uma Confissão de Fé de para a Igreja da Inglaterra. Uma  comissão foi nomeada para este fim e a mesma começou a trabalhar em três materiais: a Confissão de Fé e dois catecismos, o maior e o breve, concluindo seus trabalhos apenas em 3 de dezembro de 1646.
Este texto foi encaminhado ao restante dos participantes da Assembleia para suas anotações e a inserção de notas e provas bíblicas. Este segundo trabalho geral terminou em 29 de abril de 1647. O Breve Catecismo foi entregue ao Parlamento em 5 de novembro de 1647 e o Catecismo Maior, em 14 de abril de 1648. Mesmo depois da promulgação da Confissão de Fé, dos Catecismos e do Diretório de Culto, a Assembleia continuou funcionando formalmente até o dia 22 de fevereiro de 1649, três semanas depois da decaptação do Rei Carlos I.





domingo, 1 de outubro de 2017

Confessionalidade - Aula 1 - O Que é e Para Que Serve Uma Confissão de Fé?

Aula 01
O Que é e Para Que Serve Uma Confissão de Fé?


Introdução
Este módulo de aulas tem como objetivo um estudo básico da Confissão de Fé de Westminster. Nosso principal objetivo é entender a sua necessidade e aplicabilidade para o dia a dia da vida cristã, em particular para o desenvolvimento correto e seguro de uma piedosa vida cristã.
A Igreja Presbiteriana do Brasil - IPB adota a Confissão de Fé de Westminster e os seus Catecismos como fórmula doutrinária. Isto significa que estes documentos são resumos e parâmetros da fé professada na IPB. Mas, em geral, há um grande distanciamento entre o crente e estes símbolos de fé, a ponto de muitas vezes, serem completamente desconhecidos e terem desaparecido da vida diária cristã, mesmo dos crentes que os reafirmam como resumos fiéis da doutrina bíblica.
Em nosso curso, pretendemos apresentar a Confissão de Fé de Westminster e dar direcionamento prático para o seu uso como ferramenta para o desenvolvimento da vida cristã pessoal e familiar. Esperamos que ao final do curso, o aluno tenha condições de usar a Confissão de Fé de Westminster pessoalmente como guia de estudos para sua prática comum da vida com Deus e tenha apreço por conhece-la e aplicar suas formulas doutrinárias para o enriquecimento de seu conhecimento bíblico.  

A Confissão de Fé Não Substitui as Escrituras 
A Bíblia, toda a Bíblia e nada senão a Bíblia é a religião dos protestantes.
O lema central da Reforma é centralidade das Escrituras como a única regra de fé e prática. Em outras palavras, os reformados em geral jamais desejaram fazer de qualquer Confissão de Fé um substituto para as Escrituras.
A Bíblia é a Palavra de Deus revelada ao homem, portanto, cremos que as Escrituras são insubstituíveis e possuem autoridade intrínseca, isto é, em si mesmas. A Bíblia não precisa da igreja para lhe conferir autoridade, ao contrário, a Igreja precisa da Biblia para ter legitimidade. A crença cristã reformada é que a Bíblia é absoluta em suas afirmações e o trabalho da Igreja é buscar compreender as Escrituras.
As Confissões de Fé, por sua sua vez, são uma exposição das doutrinas apresentadas nas Escrituras. Portanto, a autoridade de uma Confissão de Fé é derivada das Escrituras. Enquanto a Bíblia é uma “norma que regula” (Norma Normans), as confissões são “normas reguladas” (Norma Normata). Desta forma, as Confissões devem ser consideradas de forma a poderem ser revistas, por serem apenas uma interpretação da verdadeira doutrina bíblica.

A Necessidade de se Ter Uma Confissão de Fé
A Bíblia é a mãe de todas as heresias (Martinho Lutero).
Inibição de Erros Doutrinários
Assim como Lutero se levantou em 1517 contra várias práticas cristãs que distorciam o ensinam bíblico e maculavam a forma da piedade cristã, os séculos seguintes de interpretação bíblica das igrejas que derivaram da Reforma também geraram suas heresias e desvios próprios.
As Confissões de Fé seguiram o mesmo propósito dos Credos Antigos e das formulações dos Antigos Concílios, ou seja, elas ofereciam fórmulas de unidade de pensamento a respeito da correta interpretação das Escrituras sobre diversos pontos.
Nos primeiros séculos do cristianismo, várias heresias se fizeram presentes na igreja. Havia, por exemplo, pessoas que aceitavam que Jesus fosse considerado apenas divino, sem ter corpo humano. Os docetistas (dokéu – aparência) diziam que o corpo de Cristo não era realmente um corpo humano, porque a matéria é má e Cristo não poderia ser associado à maldade. Eles, então, afirmavam que Cristo tinha um corpo semelhante ao corpo humano, mas não um corpo humano real.
Os concílios de Nicéia e Constantinopla deram fim a essa controvérsia e outra afirmando que Cristo era totalmente homem e totalmente Deus. Afirmando o nascimento virginal de Cristo e sua completa humanidade. Desta forma, a crença docética foi considerada um erro doutrinária e quem a professava considerado um não cristão.
As Confissões de Fé têm a mesma funcionalidade, isto é, servir como um padrão doutrinário, oferecendo interpretação segura sobre alguns aspectos do ensinamento bíblico, especialmente aqueles em que há possibilidade de erros na compreensão do ensino apresentado no texto da Escritura.

Promoção da Unidade  
Uma das funcionalidades mais práticas das Confissões de Fé é a promoção da unidade doutrinária. Ela nos permite afirmar as mesmas coisas e dá coesão à igreja e isso lhe dá força.
Um dos grandes problemas enfrentados pelos reformados ingleses era a grande fragmentação das igrejas da Inglaterra. A Assembleia de Westminster foi convocada para ser um elemento de união e fortalecimento da Igreja naquele país.
Uma confissão de fé promove essa aproximação doutrinária e diminui as divergências. Ela estabelece padrões de interpretação e limites, fazendo com que as divergência tenham referências limítrofes e não haja dentro do mesmo grupo pensamentos tão díspares a ponto de estarem tão opostos que não consigam se aproximar para caminhar juntos.

Proteção da Fé
A confessionalidade eclesiástica é uma proteção contra o erro. Na medida em que ela estabelece limites interpretativos para os crentes, também oferece ponto de comparação explícito que facilita a identificação dos erros. Um cristão confessional tem uma ferramenta para estabelecer consideração sobre o que está ouvindo e pode, por meio da Confissão de Fé, questionar a correção de qualquer ensino que seja dispare e estranho.
Na verdade, este é o propósito da própria Escritura. Afinal, o texto bíblico é um constante apelo a que não se ultrapasse a doutrina.
Irmãos, apliquei essas coisas a mim e a Apolo por amor a vocês, para que aprendam de nós o que significa: “não ultrapassem o que está escrito”. Assim, ninguém se orgulhe a favor de um homem em detrimento de outro (1Coríntios 4.6). 
Desta forma, os cristãos criam no que chamavam de “ensino dos apóstolos” e qualquer um que ensinasse qualquer coisa além deveria ser considerado apóstata.
Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema. Assim, como já dissemos, e agora repito, se alguém vos prega evangelho que vá além daquele que recebestes, seja anátema (Gálatas 1.8-9). 
As Confissões de Fé estabelecem esse mesmo padrão de confessionalidade, oferecendo interpretação segura sobre alguns pontos da Revelação, a ponto de servirem como padrões limítrofes para se identificar e prevenir os erros.

Os Limites de Uma Confissão de Fé
Os Concílios são falhos (John M. Kyle).
As Confissões de Fé são o produto do estudo humano da Escritura e por isso são passíveis de erros e podem e devem ser reformados. Sendo a Confissão uma “norma regulada”, devemos compreender que os seus limites são o surgimento de uma nova interpretação de alguns dos seus pontos de vista.
Somente a Bíblia é considerada infalível e ela mesma que oferece aos homens a liberdade de interpretá-la, mas de sujeitar a interpretação à ação do Espírito Santo por meio da obra sobrenatural de Deus na direção dos concílios.
Um bom exemplo bíblico disto foi a disputa doutrinária sobre a circuncisão dos gentios. Os irmãos se reuniram em Jerusalém para definir o que realmente era correto fazer e o texto bíblico nos diz que o Espírito conduziu a igreja à uma solução de interpretação que trouxe unidade e paz para a vida dos crentes em todo lugar.
Pois pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor maior encargo além destas coisas essenciais: que vos abstenhais das coisas sacrificadas a ídolos, bem como do sangue, da carne de animais sufocados e das relações sexuais ilícitas; destas coisas fareis bem se vos guardardes. Saúde (Atos 15.28-29).
A autoridade dos Concílios não está neles propriamente dito, mas na obra de iluminação do Espírito Santo. A doutrina bíblica é que o Espírito conduz à verdade e a verdade é medida na confluência do pensamento de homens que se reúnem sob a direção do Espírito Santo e o consenso é a resposta final do Espírito para a sua igreja.
Evidentemente, os concílios podem errar e erram. Primeiro, erram porque não são infalíveis e possuem limitações e impossibilidades. Contudo, a crença de que Deus opera através da multidão dos conselheiros é bíblica e há de se esperar que Deus o faça por meio de homens piedosos que busquem servi-lo de todo o coração.
Não havendo sábia direção, cai o povo, mas na multidão de conselheiros há segurança (Provérbios 11.14). 
Conclusão
A Confissão de Fé não substitui o uso devocional das Escrituras, mas pode oferecer ferramenta segura para sua aplicação. Sábio conselho é fazer da Confissão de Fé e dos Catecismos uma base interpretativa que lhe dê mais propriedade no entendimento da sua fé.
As Confissões podem ser questionadas e sua interpretação pode ser revista, contudo, é correto também dizer que não devemos negligencias que Deus usa os concílios reunidos para dirigir a sua igreja e que as Confissões como fruto do labor do Espírito Santo através da Igreja devem ser respeitadas e consideradas.

Conhecer bem sua Confissão de Fé e seus Catecismos é um dever de todo crente que subscreve a fé presbiteriana no Brasil e uma sábia escolha, que lhe permite crer com mais critério e segurança.