domingo, 30 de junho de 2013

Estudos em Soteriologia - Impedimentos à Santificação

Introdução
Com certeza, cristãos minimamente esclarecidos sabem da importância do crescimento na fé, o amadurecimento do nosso relacionamento com o Senhor.
O processo de santificação, como já vimos, inclui duas perspectivas centrais deste relacionamento: a consagração a Deus e o permanente transformar da nossa vida, na busca da adequação à excelência da estatura de Cristo, o varão perfeito.
Contudo, alguns elementos podem influir negativamente para que esta consagração e progresso sejam alcançados. Sobre tais impedimentos é que falaremos neste encontro.
Evidentemente, não poderemos cobrir todos os elementos que influem contrariamente para a nossa santificação, contudo abordaremos os que nos parecem ser aqueles mais comuns na vida dos crentes.
O problema da ignorância
Um dos elementos mais influentes e contrários à nossa santificação é a falta de conhecimento genuíno do Senhor.
A falta de conhecimento do Senhor e dos seus propósitos se torna o carro chefe de todos os impedimentos da nossa jornada de santificação pessoal.
A ignorância a respeito de quem é Deus, nos faz trilhar um caminho diverso daquele que exige consagração e purificação. Veja, por exemplo, o erro de Israel neste sentido.
Salmo 50.16-23 - note neste texto a complexa relação de quem não tem discernimento exato de quem é Deus. No verso 16, é possível notar que repetir os mandamentos e praticá-los maquinalmente nada tem haver com uma verdadeira consagração e purificação a Deus. O ponto mais interessante desta passagem é encontrado no verso 21:
Tens feito estas coisas, e eu me calei; pensavas que eu era teu igual; mas eu te arguirei e porei tudo à tua vista.
Mateus 22.29 - Aqui, o ponto a ser apresentado é a ignorância quanto às Escrituras e quanto ao poder de Deus. Mas isso não quer dizer que apenas pessoas que conhecem completamente as Escrituras são capazes de uma vida de santificação. Falta de conhecimento aqui é o mesmo que dizer: conhecimento distorcido das Escrituras, o que nos leva ao próximo problema.
O problema da vida focada em si mesmo
Poderíamos simplesmente dizer: egocentrismo. Mas quero tornar mais claro o ponto: o problema que devemos enfrentar aqui é o fato de que se vivermos com o foco em nossos próprios interesses nossa vida de santificação ficará comprometida.
O comprometimento ocorre porque estaremos consagrados a nós mesmos e Deus será somente uma ferramenta que intentamos usar para alcançar nossos objetivos pessoais.
Filipenses 3.17-19 - Nesta passagem podemos ver uma afirmação da inconsistência entre a vida com Deus e a vida para os nossos próprios interesses.
Quando o nosso foco está em nós mesmos, temos a tendência de manipular Deus e o nosso relacionamento com Ele não visa a aproximação. O efeito acaba sendo o contrário, nos afastamos dEle e nos tornamos movidos pelo materialismo.
O destino deles é a perdição, o deus deles é o ventre, e a glória deles está na sua infâmia, visto que só se preocupam com as coisas terrenas (Fp 3.19).   
Este pode ser um dos mais importantes elementos dificultadores do nosso processo de santificação. Fique atento para este problema.
    
O problema da falta de amor
Crentes maduros, que estão em processo de santificação estão escalando montanhas na direção de Deus. O mais claro sinal de que isto está ocorrendo é o surgimento de uma crescente inclinação para o amor. O amor é alvo da santificação ou o seu resultado mais óbvio.
A falta de amor é a comprovação da luta que existe em nosso coração. O Novo Testamento, em especial, temos muitos textos que nos alertam para este ponto. Amar o próximo não é algo que fazemos tão facilmente, pois, muitas vezes, para amar o próximo somos concitados a abrir mão de nós mesmos.
1 João 2.7-11 - Observe neste texto que a falta de amor é comparada à estar nas trevas e não na luz. Precisamos considerar isto seriamente.
Aquele, porém, que odeia a seu irmão está nas trevas, e anda nas trevas, e não sabe para onde vai, porque as trevas lhe cegaram os olhos (1Jo 2.11).
Como é possível ver, a falta de amor é precisamente um empecilho à santificação, exatamente porque é a estrada na direção oposta de Deus. Odiar o irmão é consagrar-se a si mesmo e, ainda que em outras áreas tenhamos algum progresso, indica que estamos no caminho errado.


domingo, 16 de junho de 2013

Estudos em Soteriologia - Santificação - Conceitos

Introdução
Nossas aulas, agora, abordarão assuntos mais práticos da vida cristã. Falaremos de santificação, o que também significa que falaremos da nossa própria vida diária.
A santificação é parte do processo de salvação. Na verdade, quando pensamos em salvação como o nos livrar da Ira vindoura, temos a tendência de achar então que a salvação tem sua obra completa na cruz.
Verdade é, somos salvos pela morte de Cristo e este sacrifício é final e suficiente para nos livrar a Ira vindoura. No entanto, os efeitos do pecado que permanecem sobre nós ainda são resultados da nossa natureza caída e a ira de Deus se revela do céu contra eles.
A justificação nos livra da condenação do pecado e a santificação nos livra da influência do pecado. Esta pode ser a maneira mais simples de definir estes termos e entender o quanto eles caminham junto.
O outro aspecto da santificação é o que ela é, na relação com a fé. Bem, no processo de santificação o que realmente está acontecendo é que a nossa fé está crescendo e passamos a viver um paradigma de espera e confiança em Deus. Portanto, não existe santificação sem amadurecimento verdadeiro da fé.
Estes serão, entre outros, alguns aspectos do que iremos estudar dentro deste tema.

Santificação - conceito e objetivos
Como nosso primeiro passo no estudo deste tema vamos trabalhar os conceitos. Mas, para isto, precisamos olhar para o texto bíblico e verificar os termos bíblicos que são empregados e que nos ajudam a entender o propósito da santificação.
Verdadeiramente, a santidade tem o seu sentido mais completo na sua relação com o ser de Deus. Ele é santo e toda a santidade de suas criaturas é espelhada na santidade dEle.
Contudo, em nossos estudos, para abreviar um pouco o tempo, vamos focar nosso esforço na busca de entender a santidade nos termos que a ligam à nossa vida, apenas, quando necessário é que iremos nos reportar à santidade de Deus para nos apoiar o entendimento.

Kadosh - Velho Testamento
O termo “kadosh” é a raiz bíblica mais usada para se referir à ideia de “santidade”. Kadosh é um adjetivo que pode ter nascido de dois conceitos: Khadasha - brilhar ou Kad - cortar.
Santidade e brilho
Quando entendemos “kadosh” (santo) como uma derivação do conceito de brilho, somos conduzidos a pensar no aspecto qualitativo da santidade. Isto é, somos impulsionados a imaginar a salvação em termos da excelência moral e pureza.
Esta conceituação nos faz considerar a santificação nos termos das suas elevadas aspirações de progresso espiritual e maior adequação para a vida ao lado de Deus. Esta ideia é muito presente na Bíblia, até mesmo ilustrada por outros termos como “luz”.
Quando entendemos a proposta da excelência espiritual e moral que nos é oferecida no ensino bíblico da santificação, percebemos que estamos diante de um grandioso projeto de adequação ao padrão de Deus para a nossa vida.
Devemos, então, promover em nossa mente uma mudança conceitual sobre o que somos e aonde devemos chegar. Deus está nos oferecendo alvos espirituais de lapidação da nossa vida.
Santidade e separação
Por outro lado quando focamos a santidade com o verbo “cortar”, o que fica mais evidente é a ideia de que santo também significa “separar”. Esta ideia aponta para o sentido mais prático e foca as condições mais da esfera presente.
Enquanto, por um lado, santidade pode apontar para a ideia de objetivo final e da excelência final esperada, no sentido de “separar” ou “consagrar” tem a ver com o processo.
Este sentido de santidade é uma proposta de mudança conceitual do que somos na relação com Deus e de como devemos experimentar essa relação. Este é um sentido muito prático e a principal mudança que deve ocorrer é na estrutura de como enxergamos o funcionamento da nossa relação com Deus. Em outras palavras, devemos pensar em santificação nos termos práticos de que a nossa existência deve ser nutrida por um constante exercício de consagração a ele (Romanos 12.1 e 2).
Os dois conceitos não devem ser observados de uma maneira separada um do outro. Antes, devem ser entendidos como sendo complementares um ao outro. Nossos alvos existências tem como elevada medida a adequação da nossa vida à santidade de Deus, mas este tipo de meta só pode ser alcançada quando decido de forma prática viver para alcançar tal meta, daí a ideia de consagração da mente para pensar as coisas de Deus.

Hieros, Hosios, Hagnos, Hagios - Novo Testamento
O novo testamento parte do entendimento geral do termo “kadosh” e expande o conceito nestes quatro termos, dos quais, hagnos é o mais usado e quase um paralelo do termo hebraico “Kadosh”.
Hieros (1Co 9.13 - 2Tm 3.15) - esta palavra é usada para denotar um uso religioso de terminado objeto ou pessoa. Ela indica a santidade nos termos da separação de uma pessoa ou coisa para uma finalidade específica do fim religioso, ou sagrado. Com o propósito espiritual de realizar a aproximação com Deus. Com ela podemos entender que a santidade deve ser compreendida como deixar a nossa vida ser usada para conduzir outras pessoas a Deus, devemos ter uma santidade instrumental.
Hosios (At 2.27 - Hb 7.26 - Ap.15.4) - neste termo, a ideia de pureza e incontaminação é a que está presente. A ideia de santidade como brilho, como algo incontaminado deve invadir a nossa mente. Devemos considerar o propósito elevado de abandonar o pecado e nos livrar das coisas que apontam para a nossa queda.
Hagnos (2Co 11.2 - Fp 4.8 - Tg 3.17) - Semelhante à ideia de “hosios”, o termo “hagnos” também implica em pureza e incontaminação, mas tem um sentido mais ético e moral. Nossa santificação não deve se limitar a uma proposta religiosa da nossa relação com Deus, deve influir na esfera da vida presente e no modo como tratamos as coisas e as pessoas.
Hagios - (Lc 1.70 - Ef 3.5 - 2 Pe 1.21 - Cl 1.22) - Esta é a palavra neotestamentária de mais forte referência ao conceito de santidade ou santificação. É usada em muitos contexto com nuances diferentes para o entendimento do temo.
Este termo é usado para indicar a ideia básica de consagração a Deus e a busca do ideal de viver para alcançar a estatura de Cristo. O modelo de santidade proposto nesta palavra neotestamentária é um modelo baseado no próprio Senhor Jesus Cristo.
Ela indica um serviço oficial em nome de Deus, uma separação instrumentalcomo os santos apóstolos ou os santos profetas. Homens usados por Deus para realizar os seus propósitos entre os outros homens.
Por outro lado, a palavra também indica uma postura ética de crescimento espiritual, na busca de viver para Deus e servi-lo de forma aceitável, do jeito que Ele quer. Este é o sentido mais diretamente ligado ao conceito de “santificação” que tem a ver com a busca de uma elevada condição de vida que agrade a Deus.

No próximo encontro estudaremos sobre “Os impedimentos para a santificação”


domingo, 19 de maio de 2013

Estudos em Soteriologia - Graça Irresistível e Chamado Eficaz - Parte 1


GRAÇA IRRESISTÍVEL

A esta altura, o Sistema Calvinista que já apresentou a INCAPACIDADE TOTAL do homem em si salvar por méritos pessoais, já mostrou a coerência necessária de uma ELEIÇÃO INCONDICIONAL, pois que se não existe méritos não existem também condições, e muito mais coerência demonstrou ao mostrar a necessidade de uma LIMITADA EXPIAÇÃO, não poderia continuar sua linha coerente de pensamento sem falar da aplicação da salvação: IRRESISTÍVEL GRAÇA.
Contudo chamo a atenção para o fato de que não é apenas um sistema que se baseia na sequência lógica dos fatos, ou em suas consequências razoáveis, mas o sistema doutrinário calvinista acerca da salvação tem sólido fundamento bíblico, e iremos demonstrar biblicamente a doutrina da GRAÇA IRRESISTÍVEL, contudo antes é necessário fazer uma pequena consideração:

O que é IRRESISTÍVEL GRAÇA?
É a doutrina que afirma, que ao homem escolhido, é impossível lutar contra a graça que Deus lhes quer fazer valer. Parece que esta é uma afirmação desnecessária, pois é possível que pareça absurdo somente o pensar que alguém poderia querer rejeitar a salvação de Deus. E eu lhes digo:
Todos nós rejeitaríamos à Cristo se fosse somente por nossa vontade!

“Contudo, não quereis vir a mim para terdes vida”.João 5: 40“como está escrito: Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus, todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis, não há quem faça o bem, não há um sequer”.Romanos 3: 10 à 12
É bastante triste pensarmos isto, mas é a grande verdade, nenhum de nós reagiria favorávelmente à Cristo, por isso é necessário que Ele mesmo aplique a salvação a nós.
Assim dizemos que a IRRESISTÍVEL GRAÇA, é a aplicação da salvação ao nosso coração, é o que se pode denominar de CHAMADO EFICAZ.
Não podemos confundir o CHAMADO EFICAZ, com o chamado que é feito nos diversos púlpitos espalhados por aí. Pois este chamado feito pelos pregadores todos os dias não são o chamado de Deus. Mas espere um pouco, eu não estou dizendo que Deus não usa estes chamados, apenas estou fazendo uma distinção entre a parte humana e a divina na questão do chamado.
Quando um pregador vai ao púlpito trás uma mensagem bíblica, correta e logo em seguida faz um apêlo (chamada pastoral), ele não está fazendo nada de errado. Pois a Bíblia nos mostra o dever de chamar os pecadores ao arrependimento, e quando João pregou o reino de Cristo pregou a todos os ouvintes: Arrependei-vos! Contudo nem todos que ouviram à João, foram despertados isto significa que o CHAMADO PASTORAL de João, não é igual ao CHAMADO EFICAZ DE DEUS, porque aquele é feito por um homem e este é feito pelo poder do Espirito Santo.
Quando Jonas esteve na cidade de Ninive, pregou a mesma mensagem, e a Bíblia afirma que todos os moradores da cidade se converteram à Deus. Neste caso o CHAMADO PASTORAL, foi utilizado de tal forma que coincidiu totalmente com o CHAMADO EFICAZ.
O que estamos afirmando aqui é que esta não é uma obra humana, mas sim uma obra divina, por isso é IRRESISTÍVEL, pois vem carregado do peso dos atributos de Deus, da sua Soberania, da sua Perfeição, da sua Santidade e etc. Novamente repetimos:
“Agindo Deus quem impedirá???”

O Breve Catecismo define assim a questão:
“O que é vocação eficaz?
Vocação eficaz é a obra do Espirito de Deus, pela qual, convencendo-nos de nosso pecado e de nossa miséria, iluminando nossos entendimentos no conhecimento de Cristo, e renovando nossa vontade, nos persuade e habilita a abraçar Jesus Cristo, que nos é oferecido de graça no Evangelho”.
B.C. Pergunta 31

Deus nos atrai para si, isto é uma maravilhosa verdade, que mais uma vez enaltece o ser de Deus, e o seu poder. Ele nos busca onde quer que estejamos, e não mede esforços para nos fazer chegar à Ele, contudo nossa Chamada Eficaz, se dá no dia certo e na hora certa, por Deus decretada desde antes da fundação do mundo. Eu particularmente creio que o crente que possui essa crença, é levado a pregar o evangelho mais e mais, pois sabe que Deus pode estar querendo revelar sua GRAÇA IRRESISTÍVEL a alguém e pode ser que o momento seja exatamente enquanto você prega, distribui um folheto, canta uma música cristã, ou simplesmente Deus revela sua GRAÇA IRRESISTÍVEL através do nosso procedimento cristão exemplar.
Para que você tenha mais informações sobre a GRAÇA IRRESISTÍVEL leia na Lição 6, sobre o atributo GRAÇA. Por hora iremos ficar somente com mais alguns textos que revelam o chamado eficaz[1] de Deus.

O CHAMADO COMO CONSEQUÊNCIA DA ELEIÇÃO
“Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou, (...) e aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou”
Romanos 8: 29 e 30.

O CHAMADO SE UTILIZA DA PREGAÇÃO DO EVANGELHO
“Porque tanto os judeus pedem sinais, como os gregos buscam sabedoria, mas nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios, mas para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus”.
1 Coríntios 1: 23 e 24

O CHAMADO É IRREVOGÁVEL
“Quanto ao evangelho, são eles inimigos por vossa causa; quanto, porém, à eleição, amados por causa dos patriarcas; porque os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis”.
Romanos 11: 28 e 29

Há muito o que se falar sobre este assunto, contudo iremos nos limitar ao que foi dito até aqui. Esta é uma doutrina fascinante que deve ser estuda posteriormente, pois é de fundamental importância para o entendimento da Salvação de Deus.


[1] O termo chamado é usado muito frequentemente na Bíblia, contudo ele encontra cognatos como por exemplo Vocação, que vem do termo latino Vocare, que significa chamar.

domingo, 5 de maio de 2013

Estudos em Soteriologia - Aula 007 - Eleição da Graça - Parte 2

A "ELEIÇÃO DA GRAÇA" COMO UMA OBRA DE AMOR

O primeiro passo em nossa consideração sobre a obra a "Eleição da Graça" é que ela se trata de um ato de amor da parte de Deus. Ou seja, devemos olhar este propósito salvador de Deus sempre focando a questão de como Ele decidiu revelar a sua graça. Entre tantos motivos, é por isto que estamos qualificando a eleição como obra da graça de Deus, assim como Paulo o fez em Romanos 11.5.
E ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal (para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama), já fora dito a ela: o mais velho será servo do mais moço. Como está escrito: amei Jacó, porém me aborreci de Esaú (Romanos 9.11 a 13).
Não vos teve o SENHOR afeição, nem vos escolheu porque fôsseis mais numerosos do que qualquer povo, pois éreis o menor de todos os povos, mas porque o SENHOR vos amava e para guardar o juramento que fizera a vossos pais, o SENHOR vos tirou com mão poderosa e vos resgatou da casa da servidão, do poder de Faraó, Rei do Egito (Deuteronômio 7.7 e 8).  
Como se pode observar nestes textos, o SENHOR justifica a escolha que faz pelo resgate do seu povo baseado sempre no seu amor soberano. O primeiro ponto que devemos considerar sobre este amor é a autoridade de Deus para amar a Jacó e não a Esaú (Malaquias 1.2 e 3). 

A autoridade do amor soberano de Deus é baseada na sua identidade como Criador
Como Criador de todas as coisas, o Senhor tem toda autoridade sobre a sua obra. Ele pode dispor do que criou da maneira como melhor atender aos seus planos e vontade. 
Paulo, pontuando sobre esta autoridade de Deus de amar a Jacó e odiar a Esaú assim argumentou: 
Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus? Porventura, pode o objeto perguntar a quem o fez: porque me fizeste assim? Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro para desonra? (Romanos 9.20 e 21).
A autoridade do amor soberano de Deus é baseada exclusivamente na vontade de Deus não determinada pelo homem
Outro aspecto no qual devemos basear nosso entendimento da eleição da graça é que ela foi um ato livre e soberano de Deus determinado exclusivamente por sua vontade, boa e perfeita. 

Assim, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia. (...) Logo, tem ele misericórdia de quem quer e também endurece a quem lhe apraz (Romanos 9.16 a 18).
assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele, (...) segundo o beneplácito da sua vontade (Efésios 1.4 e 5).
É necessário frisar nestes dois tópicos que o decreto da eleição da graça é um ato da vontade livre e soberana de Deus, o que importa dizer que tudo mais decorre deste ponto. OU seja, o próprio envio de Cristo Jesus para o resgate dos homens é uma consequência desta vontade livre e soberana que ama pecadores e decide salvá-los apesar de sua condição de condenados pelos seus próprios pecados.
O amor eletivo de Deus precede o envio de seu filho é a sua causa motriz. O próprio desejo do Filho de ser o nosso Redentor decorre do desejo de satisfazer à vontade do Pai. Ele veio a nós, porque o Pai nos escolheu para si. 

A Natureza da Eleição da Graça

É imutável - é seguro dizer que podemos confiar nela - 2 Timóteo 2.19
É eterna - já fizemos menção disto - Romanos 8.29.
É incondicional - não é determinada por nada externo a Deus, senão por sua vontade somente - não é um abra definida por nós e por aquilo que fazermos, mas pelo desejo de Deus manifestar sua misericórdia e amor (Atos 13.48). 
É irresistível - Salmo 110.3 - Filipenses 2.13 - mesmo que o homem se oponha a ela, não é capaz de manter-se longe de seu poder. Deus, muda as inclinações da nossa vontade e nos conduz a ele. 

O Propósito da Eleição da Graça
Salvação dos eleitos - 2. Tessalonicenses 2.13
Glória de Deus - Efésios 1.6, 12, 14; 2.10. 2 Timóteo 2.21
Mostrar o poder da Ira e da Misericórdia de Deus, ressaltar sua graça - Romanos 9.19 a 23. 
  



domingo, 14 de abril de 2013

Estudos em Soteriologia - Aula 006 - Eleição da Graça - Parte 1


Introdução
Devemos considerar que o Pacto Trinitário da Graça é o primeiro passo efetivo para a salvação de homens condenados à Ira. Este pacto acontece na Eternidade e será aplicado na história individual de homens redimidos.
Contudo, apenas Deus decidir a salvação dos homens não a torna efetiva. Outros passos precisam ser dados para que o preço seja pago e a Lei satisfeita, desviando assim a Ira do pecador.
O processo da salvação é também conhecido na teologia histórica por “ordo salutis” (ordem da salvação). Esta maneira didática de estudar o processo da salvação nos oferece uma visão da aplicação do Eterno Pacto da Graça na vida dos que creem em Jesus.
Nesta aula, abordaremos o ponto inicial da dinâmica aplicação do Pacto da Graça na vida do homem redimido. Este passo inicial ainda está concentrado nas ações de Deus, mais exclusivamente nas ações do Deus Pai. Falaremos sobre a “Eleição da Graça”.

Uma Explicação Necessária
Alguns teólogos, preferem estudar a “Eleição da Graça” em um outro tópico da Teologia Sistemática”. Eles pontuam que a “eleição” deve ser estudada nas obras de Deus e não como parte da aplicação do Pacto da Graça. Insistem nesta posição por dizerem que esta obra é feita fora do homem e não internamente no coração humano.
Concordo particularmente que esta obra acontece fora do coração do homem e está absolutamente ligada à decisão divina. Entretanto, prefiro incluí-la no estudo da “ordo salutis” para que fique bastante clara a noção de que a salvação não é um movimento humano, mas nasce na Trindade para depois alcançar o ser humano.
A afirmação histórica de que a salvação, no sistema calvinista, é monergista, revela esta ênfase de observação que partiu de Deus a decisão e a realização da salvação dos homens.

Outra Explicação Necessária: “Ordo Salutis” nas Escrituras
Antes de apresentar qualquer analogia da ideia de “ordo salutis” nas Escrituras, precisamos salientar que esta é somente uma maneira didática de estudar o processo da salvação do homem. De maneira alguma estamos sugerindo que estes fenômenos salvacionais ocorrem de maneira isolada.
Na verdade, a salvação é uma obra completa que o Senhor realiza, onde cada etapa se interliga e se confunde com a outra, caracterizando uma ação global do amor de Deus pelos seus filhos escolhidos.
Podemos dizer que o desenvolvimento da “doutrina da salvação” é primordialmente uma obra da mente paulina do Novo Testamento. Foi o apóstolo Paulo, com seu peculiar discernimento sobre a fé em Cristo, que nos outorgou uma visão mais pormenorizada do processo de resgate do homem caído e escravizado ao pecado.
Está em Romanos 8.29 e 30, o texto mais próximo de uma ideia geral de “ordo salutis” que encontramos na Bíblia. Contudo, podemos aprender com o apóstolo, em outros textos aspectos bem próximos de uma sequência de eventos gerais que redundam na salvação de homens caídos. Um outro capítulo bastante próximo a este conceito é o de Efésios 1.3 a 14.
Em Romanos 5.1, por exemplo, ele diz: “...justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo”  - é possível inferir deste texto que a justificação precede a reconciliação dentro do processo de salvação. Não estamos nos referindo ao concreto espaço de tempo em que uma coisa segue a outra, mas a uma importante consideração sobre a lógica dos acontecimentos: primeiro Deus paga o preço, nos justificando assim dos pecados, somente depois da Lei satisfeita pela obra de Cristo é que o Pai olha para nós com olhar reconciliado.
Em Romanos 10.17, lemos o seguinte: “...a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo”. Uma outra tradução, mais impregnada no ideário brasileiro é: “de sorte que fé é pelo ouvir e o ouvir pela palavra de Deus”. Eu prefiro a segunda, que é mais literal, segundo o texto grego mais utilizado em nossos dias.
De qualquer forma, chamo a sua atenção para o fato de que existe uma sequencia de atos no processo da salvação. O despertamento da fé ocorre em decorrência da chamada da Palavra de Deus na mente humana.
E, para encerrar esta etapa explicativa, apenas consideramos a base bíblica para uma elaboração teológica de uma ordem no processo da aplicação da redenção (ordo salutis) e que o propósito é apenas didático com o fito de facilitar o entendimento desta grandiosa e maravilhosa obra graciosa de Deus.

Predestinação - Uma Obra Eterna
Entre os temas bíblicos mais controversos do cristianismo histórico, desde os tempos de Agostinho de Hipona até os nossos dias, encontramos a discussão da “Doutrina da Predestinação”.
Essa doutrina ensina que a decisão sobre o destino eterno de todos os homens é um movimento exclusivo da vontade de Deus, recaindo sobre Deus toda a responsabilidade de definir quem será ou não alcançado e resgatado pela obra determinada no “pacto da graça”.
A recepção desta doutrina encontra algumas barreiras dentro do coração humano. Isto ocorre porque ela confronta uma das mais rígidas estruturas do sistema deturpado provocado, na queda humana; ela vai de encontro (deixo claro: bate de frente) com a estrutura egocentrada do coração do homem caído.
Então, a predestinação, que pontua sobre a autoridade divina para definir o destino humano, causa o desconforto no coração estruturado pelo pecado para amar a si mesmo, uma vez que coloca o homem na condição de receptor da vontade de Deus e não definidor da mesma. Foi disto que o apóstolo Paulo falou quando escreveu:
Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus? Porventura, pode o objeto perguntar a quem o fez: porque me fizeste assim? Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro, para desonra? (Romanos 9.20 e 21).  
Os reformadores do século XVI foram unânimes em reconhecer a realidade bíblica desta doutrina. O ponto que se desenvolveu posteriormente foi quanto ao entendimento sobre o modo como a predestinação se efetiva na história da salvação. Boa parte dos teólogos protestantes, afirmou claramente a predestinação absoluta realizada em Deus na eternidade, seguindo o conceito calvinista.
Mas outra boa parte preferiu um caminho mais brando, afirmando que a predestinação era fruto da presciência de Deus. Ou seja, para estes tantos, Deus predestinava o homem como um resultado do conhecimento antecipado que tinha da situação eterna de cada um. Neste caso, Deus não efetivamente predestinava, mas apenas homologava um conhecimento que tinha e decretava o destino eterno baseado neste pré-conhecimento (ver 1 Pedro 1.2).

Apresentação do Conceito Reformado de Predestinação
Para os reformados, em geral dos de matriz calvinista, a predestinação é absoluta e ocorre como expressão da soberania, autoridade e poder de Deus. Portanto, é um ato definidor e não meramente reconhecedor do destino eterno dos homens (teoria da presciência).
Este nosso sistema se fundamenta em dois pilares fundamentais: Deus é soberano e o homem é completamente incapacitado pelo pecado para voltar-se para Deus, que é o conceito de “depravação total”.
Para melhor estudarmos este ponto vamos construir biblicamente este conceito, lembrando que o nosso foco será o estudo relacionado à salvação, então, focaremos a seguir na “eleição da graça”.

O Autor da Predestinação
O autor da predestinação obviamente é Deus. A Trindade como um todo está envolvida no processo de elaboração do conceito em geral, contudo, dentro da “economia da Trindade” (a definição de papéis na Trindade) a predestinação é uma obra atribuída particularmente ao Pai.
Manifestei o teu nome aos homens que me deste deste mundo. Eram teus, tu mos confiaste, e eles têm guardado a tua palavra” (João 17.6).
Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que nos tem abençoado... assim como nos escolheu nEle, nele, antes da fundação do mundo...; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito da sua vontade (Efésios 1. 3 a 5).
Há vários textos que pontuam sobre o Pai realizando uma obra de determinação daqueles que irão crer e ser adotados como seus filhos. Inclusive, indicando que sem agir da vontade de Deus, nenhum homem poderá romper o laço que tem com o pecado e a condenação eterna.
Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora (João 6.37).
Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia (João 6.44).

As Partes da Predestinação
A predestinação, necessariamente, inclui duas partes. Deve-se considerar que inclui a salvação eterna e a perdição eterna dos homens. Olhando para estes dois resultados necessários da predestinação bíblica, dividimos o estudo da predestinação em dois focos: a eleição da graça e a reprovação dos ímpios.
Nosso foco, como já mencionado será direcionado para a “eleição da graça”. Entretanto, não podemos aferir um conhecimento mais completo desta eleição se não nos detivermos também no seu oposto, a doutrina da reprovação eterna dos ímpios.
A Doutrina da Reprovação Eterna dos ímpios
O padrões confessionais reformados falam da reprovação, tanto a Confissão de Fé de Westminster (Capítulo III e VII), quanto a Confissão Belga (Art.XVI), pontuam sobre este tema (vide exemplo):
CFW - III.3- Eleitos e não eleitos.
Pelo decreto de Deus e para manifestação da sua glória, alguns homens e alguns anjos são predestinados para a vida eterna1 e outros preordenados para a morte eterna
Temos dois lados da reprovação: a preterição que aponta para a determinação de Deus de deixar de lado alguns homens do operar da obra salvadora e a condenação que se define sobre eles, designando-os para a punição eterna de seus pecados.
A reprovação dos ímpios é claramente ensinada nas Escrituras e atribuída a Deus como um ato de sua vontade ativa e não somente uma declaração baseada na sua presciência.
Que diremos, pois, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, preparados para a perdição (Romanos 9.22).
Pedra de tropeço e rocha de ofensa. São estes os que tropeçam na palavra, sendo desobedientes, para o que também foram postos (1 Pedro 2.8).