domingo, 5 de novembro de 2017

Confessionalidade - Aula 5 - Os Decretos Eternos de Deus

Aula 05
Os Decretos de Deus


Introdução
Como já vimos anteriormente, a Confissão de Fé de Westminster tem como fundamento para a sua teologia a Escritura e dela decorre todo o seu argumento. Também já tratamos aqui no fato de que a percepção da “soberania absoluta de Deus” é um assunto transversal que dirige a CFW. Tendo estes dois pontos primordiais em mente o tempo todo, vamos ao capítulo 3 e avaliar a teologia da CFW para compreender o modo como a realidade da vida humana vem à existência, a partir da vontade livre e soberana de Deus.
Lembrando que o propósito da CFW é nortear o relacionamento do homem com o Criador, do servo como o Senhor, a Teologia dos Decretos Eternos de Deus é basilar para isto. Por que é a percepção do valor dos decretos eternos de Deus que o homem aprende a perceber sua realidade criatural e a se entregar com confiança e esperança à vontade do Senhor.


A RELAÇÃO DOS DECRETOS DE DEUS COM A REVELAÇÃO
Um dos pontos mais importantes do Capítulo III é notar como ele é uma decorrência necessária e lógica dos capítulos I e II. OU seja, a afirmação bíblica é o ponto de partida para o entendimento da Teologia dos Decretos de Deus e o próprio ser de Deus é o seu fundamento.
Quando os teólogos de Westminster afirmam que todas as coisas que vêem à existência são fruto da livre e soberana vontade de Deus, que ordena a existência de tudo, eles o fazem baseados na Escritura. Uma teologia natural, nascida apenas da percepção humana e não da Revelação Divina, talvez nos conduziria à ideias relativas sobre Deus, nos termos em que ele não poderia ser soberano e livre. Mas a teologia de Westminster se fez cativa da Revelação e da interpretação das Escrituras sem imposição da lógica humana sobre ela.
Eles também fizeram uma relação direta deste tópico com o segundo capitulo, onde claramente se aponta para o ser de Deus como sendo “totalmente livre”. OU seja, a Teologia de Westminster é forjada a partir de uma percepção gloriosa de Deus como o Senhor absoluto de tudo e não determinado por nada senão por sua própria natureza santa.
Ele é um espírito puríssimo, invisível, sem corpo, membros ou paixões, é imutável, imenso, eterno, incompreensível, onipotente, onisciente, santíssimo, completamente livre e absoluto, fazendo tudo par a sua glória e segundo o conselho da sua boa vontade, que é reta e imutável (CFW II-1b).
A Revelação bíblica somada à percepção das gloriosas virtudes do ser de Deus são os elementos que conduziram os teólogos de Westminster a escrever este capítulo dos Decretos Eternos de Deus. A liberdade absoluta de Deus é uma das características mais destacadas do seu ser para a CFW e este valor perpassa o capítulo III em sua inteireza.
Deus tem em si mesmo e de si mesmo, toda a vida, glória, bondade e bem-aventurança. Ele é todo suficiente em si e para si, pois não precisa das criaturas que trouxe à existência, não deriva delas glória alguma, mas somente manifesta sua glória nelas, por elas e sobre elas. Ele é a única origem de todo ser; dele, por ele e para ele são todas as coisas e sobre elas tem ele soberano domínio para fazer com elas, para elas e sobre elas tudo quando quiser (CFW II,2a).
Então, quando lemos o capítulo III, precisamos fazer essa correlação entre a verdade apresentada como “Revelação” e a “natureza livre e soberana” de Deus. Estes são fundamentos da percepção de como Deus trás à existência tudo quanto existe e define absolutamente tudo como deve ser.

A LIBERDADE ABSOLUTA DE DEUS E A LIBERDADE DERIVADA DO HOMEM
O tópico central discutido neste capítulo é o decreto eterno de Deus de se relacionar com seu povo por meio do ato providencial da salvação. Em todo o capítulo este é o foco, como é o foco de toda a CFW estabelecer um bom relacionamento entre o povo de Deus e o seu Senhor.
Mas, antes de começar a definir este tópico, os teólogos de Westminster pontuaram sobre o fato de que Deus é o livre organizador de toda a realidade. Ele é soberano Senhor de tudo e de todos, contudo logo de início reconhecem e fazem uma observação importante, derivada da Revelação bíblica, ou seja, ele propõe no dilema “soberania de Deus” e “liberdade humana” um ponto escriturístico de limite teológico, cujo entendimento só pode ser alcançado por meio da humilde submissão à Revelação divina.
Desde toda a eternidade e pelo mui sábio e santo conselho de sua própria vontade, deus ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, porém de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou a contingência das causas secundárias, antes estabelecidas (CFW III, 1).
Deus é livre para trazer à existência toda a realidade, inclusive a realidade moral. Esta última é a realidade de dar ao homem uma condição de fazer escolhas livres que correspondam ao seu caráter. Duas observações são postas nesta proposição da liberdade de Deus de trazer todas as coisas à existência, a primeira é a realidade do mal e do pecado, que precisa ser compreendido como fruto da moralidade humana que se desvia de Deus e da própria capacidade humana de agir moralmente.
Os valores que norteiam o coração do homem são as contingências das causas secundárias, ou seja, o coração do homem se inclina segundo a sua natureza, mas isso não surpreende a Deus que conhece o desejo do coração do homem e não o aliena disto.
A liberdade de Deus é tão absoluta que nem a realidade o controla. Este é um ponto que vemos trabalhado no item 2 do capítulo III. Neste tópico, os teólogos de Westminster estavam respondendo à indagações teológicas que se levantavam nos principalmente nos círculos arminianos. A Escritura claramente revela que Deus sabe todas as coisas que estão para acontecer, mas para os teólogos de Westminster, o pensamento arminiano que se baseia em parte da ideia de que a presciência de Deus sobre todos os acontecimentos é que controla as suas ações, é uma forma equivocada de pensar sobre Deus.
Ainda que Deus sabe tudo quanto pode ou há de acontecer em todas a circunstância imagináveis, ele não decreta coisa alguma por havê-la previsto como futura, ou como coisa que havia de acontecer em tais e tais condições (CFW III, 2).
Note que o ponto é que o fato de haver um futuro e Deus saber como ele será, não importa em que ele se submeta à realidade. Ao contrário, a realidade é fruto da vontade de Deus e não a vontade de Deus fruto da realidade. Este é um típico tópico em que os teólogos de Westminster fazem combinar uma absoluta submissão à Revelação com uma gloriosa percepção do ser livre de Deus, que se aprende na revelação.

A SALVAÇÃO COMO O FOCO DE DEUS NA SUA RELAÇÃO COM OS HOMENS CRIADOS
Os itens 3 a 8 do capítulo III da CFW apontam para a realidade eterna determinada por Deus para os homens que ele criou. Eles irão enfatizar o propósito eterno de salvar homens que moralmente se tornaram réprobos. Os teólogos de Westminster sabiam que estavam andando em águas turbulentas, então fizeram uma observação importante no tópico 8:
A doutrina deste alto mistério de predestinação deve ser tratada com especial prudência e cuidado, a fim de que os homens, atendendo à vontade revelada em sua Palavra e prestando obediência a ela, possam, pela evidência de sua vocação eficaz, certificar-se de sua eterna eleição (CFW, III, 8a).
Um dos aspectos que deve nos chamar a atenção é que a ideia dos teólogos de Westminster é promover uma percepção gloriosa do valor da eleição divina para o crente. O foco é a relação que Deus deseja estabelecer com seus eleitos e um apreço grandioso pelos atos providencias de Deus em favor da salvação que ele eternamente determinou.  

Eleição para vida e preordenados para a morte – o tópico 3 estabelece estes dois polos como fatores determinados, homens (e anjos) serão salvos; mas também homens (e anjos) serão condenados. O destino eterno dos homens (e anjos) está nas mãos de Deus, mas como vimos anteriormente, eles são moralmente responsáveis, tanto para uma coisa, quando para outra. Em ambos casos, Deus trás à realidade estas coisas para a manifestação da sua glória.
Que diremos, pois, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, preparados para a perdição, a fim de que também desse a conhecer as riquezas da sua glória em vasos de misericórdia, que para glória preparou de antemão (Rm 9.22-23). 
A imutabilidade destes decretos é um fator de importante consideração na teologia de Westminster, isto é, não se trata de uma realidade imprevisível, mas de uma realidade que responde à vontade e ao plano eterno de Deus. A glória de Deus não é uma possibilidade, mas uma realidade que ele trará à existência. Ele é glorificado na salvação e na condenação. Na salvação por causa do seu poder sobre a morte e na condenação na demonstração clara de sua santidade e pureza absolutas.

Eleição e salvação como fruto da liberdade absoluta de Deus – Respondendo à teologia arminiana, os teólogos de Westminster, mais uma vez, fazem uma observação que aponta para a ideia de que Deus não é controlado pela realidade, mas o contrário, a realidade é controlada por Deus.
Segundo o seu eterno e imutável propósito, e segundo o seu santo conselho e beneplácito da sua vontade, antes que fosse o mundo criado, deus escolheu em Cristo, para a glória eterna, os homens que são predestinados para a vida, para o louvor da sua gloriosa graça, ele os escolheu de sua mera e livre graça e amor, e não por previsão de fé, ou de boas obras e perseverança nelas, ou de qualquer outra coisa na criatura que a isso o movesse, como condição ou causa (CFW III, 5).

Os fins e os meios para a salvação – a teologia da CFW aponta para a ideia de um Deus que controla a história e não somente um Deus passivo diante dos acontecimentos. A grande obra da história é a salvação dos filhos de Deus e para isto, fica claro na teologia da CFW que Deus dirige os meios conducentes para que sua vontade se realize.
Assim como Deus destinou os eleitos para a glória assim também, pelo eterno e mui livre propósito de sua vontade, preordenou todos os meios conducentes a esse fim (CFW III,6a).
Estes meios são resumidos em obras de salvação que serão tratadas posteriormente: eleição, remissão em Cristo, chamado eficaz e justificação, adoção, santificação. Deus ordena todas coisas para que seus filhos remidos sejam conduzidos à plenitude do relacionamento com Ele.  

Concede e recusa misericórdia pela sua livre vontade – ó tópico VII é uma consideração principalmente sobre a recusa da misericórdia de Deus. Neste tópico se ressalta a ideia de que tudo é para glória de seu soberano poder sobre suas criaturas. A salvação dos homens é resultado da sua vontade, mas a condenação é resultado do pecado humano. OU seja, Deus salva por que deseja salvar e condena porque o homem merece a condenação.   

Conclusão
O resultado pretendido pelos teólogos de Westminster é o que o crente confie no amor eterno de Deus e busque, por meio de um relacionamento de fé experimentar e certificar-se de sua eleição eterna. Esta percepção deveria causar admiração, amor, reverência a Deus, bem como atitude de humildade, obediência e conforto no coração dos eleitos.
Assim todos os que sinceramente obedecem ao Evangelho, esta doutrina fornece motivo de louvor, reverência, e admiração a Deus, bem como de humildade, diligencia e abundante consolação (CFW III, 8b).


domingo, 29 de outubro de 2017

Confessionalidade - Aula 4 - As Sagradas Escrituras - Sem. Josué Ricardo Menossi de Freitas

Capítulo 1 – Das Sagradas Escrituras


I. Ainda que a luz da natureza e as obras da criação e da providência de tal modo manifestem a bondade, a sabedoria e o poder de Deus, que os homens ficam inescusáveis, contudo não são suficientes para dar aquele conhecimento de Deus e da sua vontade necessário para a salvação; por isso foi o Senhor servido, em diversos tempos e diferentes modos, revelar-se e declarar à sua Igreja aquela sua vontade; e depois, para melhor preservação e propagação da verdade, para o mais seguro estabelecimento e conforto da Igreja contra a corrupção da carne e malícia de Satanás e do mundo, foi igualmente servido fazê-la escrever toda. Isto torna indispensável a Escritura Sagrada, tendo cessado aqueles antigos modos de revelar Deus a sua vontade ao seu povo.

Sal. 19: 1-4; Rom. 1: 32, e 2: 1, e 1: 19-20, e 2: 14-15; I Cor. 1:21, e 2:13-14; Heb. 1:1-2; Luc. 1:3-4; Rom. 15:4; Mat. 4:4, 7, 10; Isa. 8: 20; I Tim. 3: I5; II Pedro 1: 19.


- Deus se revela a todas as pessoas. Como? *Através da revelação geral*
            - “luz da natureza” – somos imagem de Deus, ou seja, Ele imprime em todo ser humano quem Ele é (fazemos parte da natureza);
            - “obras da criação e da providência” – o mundo que está à nossa volta nos traz evidências suficientes à declaração de existência do Criador (que criou e preserva);
            Nos crentes, essa revelação os leva a orar e adorar ao Criador, a Quem conhecem.
            Nos incrédulos, os torna indesculpáveis, pois a existência de Deus lhes é declarada. Essa marca que Deus imprime em todo ser humano gera o que Calvino chama de semen religionis ou sensus divinitaitis.
            ***Não precisamos provar aos incrédulos a existência de Deus: eles  já sabem***
            Esse conhecimento comum a respeito de Deus já é suficiente para nunca deixarem de busca-Lo: tornam-se indesculpáveis.
- Deus se dá a conhecer por meio da revelação especial: é o conhecimento necessário à salvação.
            - A Escritura é a autorevelação de Deus: revela a verdade, a sua vontade no que diz respeito à salvação.
            - Doutrina da Preservação – resolveu registrar a sua vontade, para “melhor preservação e propagação da verdade”, para que a Igreja tenha uma base sólida (absoluta) contra: “corrupção da carne”, “maldade de Satanás” e o “mundo”. Ideia de referencial.
            Por que Deus não fala mais como antigamente e, em Sua infinita sabedoria, resolveu registrar a verdade, a sua vontade? *referencial absoluto*
            Deus nos fala através da pregação e dos sacramentos (Batismo e Santa Ceia)? Sim, à luz de Sua Palavra.

II. Sob o nome de Escritura Sagrada, ou Palavra de Deus escrita, incluem-se agora todos os livros do Velho e do Novo Testamento, que são os seguintes, todos dados por inspiração de Deus para serem a regra de fé e de prática:
O VELHO TESTAMENTO
Gênesis
Êxodo
Levítico
Números
Deuteronômio
Josué
Juízes
Rute
I Samuel
II Samuel
I Reis
II Reis
I Crônicas
II Crônicas
Esdras
Neemias
Ester
Jó
Salmos
Provérbios
Eclesiastes
Cântico dos Cânticos
Isaías
Jeremias
Lamentações de Jeremias
Ezequiel
Daniel
Oséias
Joel
Amós
Obadias
Jonas
Miquéias
Naum
Habacuque
Sofonias
Ageu
Zacarias
Malaquias

O NOVO TESTAMENTO
Mateus
Marcos
Lucas
João
Atos
Romanos
I Coríntios
II Coríntios
Gálatas
Efésios
Filipenses
Colossenses
I Tessalonicenses
II Tessalonicenses
I Timóteo
II Timóteo
Tito
Filemon
Hebreus
Tiago
I Pedro
II Pedro
I João
II João
III João
Judas
Apocalipse

Ef. 2:20; Apoc. 22:18-19: II Tim. 3:16; Mat. 11:27.


III. Os livros geralmente chamados Apócrifos, não sendo de inspiração divina, não fazem parte do cânon da Escritura; não são, portanto, de autoridade na Igreja de Deus, nem de modo algum podem ser aprovados ou empregados senão como escritos humanos.

Luc. 24:27,44; Rom. 3:2; II Pedro 1:21.


Os parágrafos acima demonstram o que é e o que não é Escritura.
            A diferença entre qualquer outro livro e a Bíblia reside na inspiração. Todo e qualquer livro é feito com base nos talentos e compreensões que Deus deu aos homens e, muitas dessas obras são dignas de atenção e reflexão, porém não se comparam à Palavra registrada vinda diretamente do próprio Deus.
            Forma-se uma biblioteca de 66 livros (39 AT e 27 NT):
- homens foram inspirados por Deus PARA a produção desse material, a Palavra é inspirada (saiu do próprio Deus), por isso REGRA DE FÉ E PRÁTICA;
            Apócrifos (coisas ocultas) não são inspirados, não fazem parte do cânon:
            - não se sabe a verdadeira data;
            - nem mesmo o autor;
            - não passam pelos critérios de harmonização e da preservação;
            - incluídos pelo Concílio de Trento – 1545 - 1563 – (reafirmou a “Infalibilidade Papal” – movimento da Contrarreforma): Tobias, Judite, 1º e 2º Macabeus, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico, Baruc, e incluiu textos em Ester e Daniel. (Ap. 22.18-19)
            - não são reconhecidos como inspirados nem mesmo pelos judeus;
            - baseiam doutrinas estranhas à harmonia bíblica, como a do “Purgatório”, a da “Oração pelos Mortos”, dentre outras.
            * Os “30 Artigos” da Igreja Anglicana (1563) afirmam que tais livros são “exemplo de vida e instrução de conduta”, porém, contraditoriamente, informam que não podem “estabelecer qualquer doutrina”. (doutrina=ensino)


IV. A autoridade da Escritura Sagrada, razão pela qual deve ser crida e obedecida, não depende do testemunho de qualquer homem ou igreja, mas depende somente de Deus (a mesma verdade) que é o seu autor; tem, portanto, de ser recebida, porque é a palavra de Deus.

II Tim. 3:16; I João 5:9, I Tess. 2:13.

V. Pelo testemunho da Igreja podemos ser movidos e incitados a um alto e reverente apreço da Escritura Sagrada; a suprema excelência do seu conteúdo, e eficácia da sua doutrina, a majestade do seu estilo, a harmonia de todas as suas partes, o escopo do seu todo (que é dar a Deus toda a glória), a plena revelação que faz do único meio de salvar-se o homem, as suas muitas outras excelências incomparáveis e completa perfeição, são argumentos pelos quais abundantemente se evidencia ser ela a palavra de Deus; contudo, a nossa plena persuasão e certeza da sua infalível verdade e divina autoridade provém da operação interna do Espírito Santo, que pela palavra e com a palavra testifica em nossos corações.

I Tim. 3:15; I João 2:20,27; João 16:13-14; I Cor. 2:10-12.


            A autoautenticação das Escrituras é o que lhe confere autoridade: não por TESTEMUNHO de homem (1ª Jo. 5.9) ou igreja. (testemunho = falar)
            Tradição da Igreja (Católica) era utilizada para definir qual seria a interpretação dos textos bíblicos e tinham a mesma autoridade das Escrituras. Essa tradição (“jurisprudência”) é composta pelas bulas papais e decisões dos concílios. (daí temos ideias como a “compra de indulgências”, a “veneração de relíquias”, o “purgatório” etc., sem qualquer fundamento bíblico – posteriormente, há o reforço dos livros apócrifos – movimento da Contrarreforma)
            A única autoridade capaz de nos ordenar ao comprometimento com a Palavra é o próprio Deus, pois não mente, e que é a própria verdade (Jo. 1.14; 14.6).
            O mesmo Espírito que nos ajuda a ver Jesus como nosso Salvador e Senhor, é o que nos ajuda a compreender a Palavra de vida, reconhecendo a autoridade dela e confiando em suas promessas (Jo. 10.11-16).
           

VI. Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dele (sic) e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela. À Escritura nada se acrescentará em tempo algum, nem por novas revelações do Espírito, nem por tradições dos homens; reconhecemos, entretanto, ser necessária a íntima iluminação do Espírito de Deus para a salvadora compreensão das coisas reveladas na palavra, e que há algumas circunstâncias, quanto ao culto de Deus e ao governo da Igreja, comum às ações e sociedades humanas, as quais têm de ser ordenadas pela luz da natureza e pela prudência cristã, segundo as regras gerais da palavra, que sempre devem ser observadas.

II Tim. 3:15-17; Gal. 1:8; II Tess. 2:2; João 6:45; I Cor. 2:9, 10, l2; I Cor. 11:13-14.


            Doutrina da Suficiência das Escrituras: o que a Bíblia revela é suficiente para glorificar a Deus, para a salvação, para a fé e para a vida.
(Conectivo lógico utilizado: Disjunção Exclusiva: “ou ‘x’ ou ‘y’”)
            - Ou a Bíblia revela de forma expressa (sem deixar margem para dúvida);
            - ou, de forma lógica (utiliza-se das faculdades mentais) e clara (também, sem margem para dúvida) se deduz (método: geral para o particular). ***Cosmovisão*** (princípios gerais). Por isso, não precisamos de adicionais à revelação escrita (Gl. 1.6-9).
Método:
            - Indutivo: particular para o geral.
            - Dedutivo: geral para o particular.
            Íntima iluminação do Espírito Santo: há alguma novidade? Sim e não. Há, no sentido de que o Espírito Santo abre os nossos olhos para entendermos as verdades das Escrituras (salvação) e, também, nada é novidade, pois tais verdades sempre estiveram nas Escrituras. (Jo. 6.45)
            Culto e governo: exs.: “ordem e decência” – do geral para o particular – “não conversar no momento de oração ou pregação da Palavra”. “Multidão de conselhos”, logo, não teremos apenas um presbítero na igreja, mas quantos? Precisamos orar e pedir sabedoria a Deus, mas, por regra geral, já é sabido que um só presbítero não é aconselhável. ***Regras Gerais***


VII. Na Escritura não são todas as coisas igualmente claras em si, nem do mesmo modo evidentes a todos; contudo, as coisas que precisam ser obedecidas, cridas e observadas para a salvação, em um ou outro passo da Escritura são tão claramente expostas e explicadas, que não só os doutos, mas ainda os indoutos, no devido uso dos meios ordinários, podem alcançar uma suficiente compreensão delas.

II Pedro 3:16; Sal. 119:105, 130; Atos 17:11.

VIII. O Velho Testamento em Hebraico (língua vulgar do antigo povo de Deus) e o Novo Testamento em Grego (a língua mais geralmente (sic) conhecida entre as nações no tempo em que ele foi escrito), sendo inspirados imediatamente por Deus e pelo seu singular cuidado e providência conservados puros em todos os séculos, são por isso autênticos e assim em todas as controvérsias religiosas a Igreja deve apelar para eles como para um supremo tribunal; mas, não sendo essas línguas conhecidas por todo o povo de Deus, que tem direito e interesse nas Escrituras e que deve no temor de Deus lê-las e estudá-las, esses livros têm de ser traduzidos nas línguas vulgares de todas as nações aonde chegarem, a fim de que a palavra de Deus, permanecendo nelas abundantemente, adorem a Deus de modo aceitável e possuam a esperança pela paciência e conforto das escrituras.

Mat. 5:18; Isa. 8:20; II Tim. 3:14-15; I Cor. 14; 6, 9, 11, 12, 24, 27-28; Col. 3:16; Rom. 15:4.


            As Escrituras possuem em si graus de dificuldade, seja de linguagem, seja de contexto (conhecimento de costumes, características de determinada região, e assim por diante), no que diz respeito ao entendimento que temos dela.
            Também, o que nos é suficiente para a salvação, que devem ser observadas e cridas são claramente expostas a todos, mestres ou não: “todos pecaram”, “há um só Mediador” etc.
            A dificuldade também pode estar relacionada com o grau de instrução, pois nem todos são mestres, porém, não há com o que se desesperar e nem pode ser desestímulo para o seu entendimento, pelo contrário, por ser matéria de “direito e interesse” do povo de Deus, pode e deve ser objeto de estudo incessante, pois, antes, o seu prazer está na Lei do Senhor e nela medita de dia e de noite (Sl. 1). (Jo. 5.39)
            O Espírito Santo nos auxilia no entendimento de Sua Palavra, ainda mais quando utilizamos os meios ordinários, que são a pregação da palavra e os símbolos do evangelho (batismo e Ceia do Senhor). ***O incremento nos símbolos originais, em geral, manifesta a perda de sentido dos símbolos, não tendo mais a força de significado que deveriam manifestar pessoal e naturalmente.***
            Meios ordinários, talvez, também façam referência aos meios comuns de interpretação, sem alegorizar, por exemplo.
            Tradução é um compromisso, pois acesso à Escritura é de interesse e direito do povo de Deus (de todas as línguas).
Os textos nos idiomas originais devem ser estudados para dirimir qualquer controvérsia religiosa (supremo tribunal).
Quanto à conservação/preservação da pureza das Escrituras, deve-se verificar, como já dito, a autenticidade e harmonização essencial dos textos, textos que são preservados desde os primórdios da Igreja. Ex.: Textos do primeiro século que, possivelmente, estariam com o status de “escritura sagrada” no Novo Testamento, na época em que foi redigida a Confissão de Fé de Westminster (década de 40 do século XVII), estavam desaparecidos ou em fragmentos. Escritos como a epístola de Barnabé, texto de período posterior aos primeiros anos da Igreja, foram encontrados apenas na virada do século XX. (Mt. 5.18)
- Nenhum livro no mundo mostra o “singular cuidado e providência” de Deus como as Sagradas Escrituras.
Ilíada e Odisséia (Homero) e os ditos de Sócrates (Platão) (ex.: Fédon, Mito do Destino das Almas) são exemplos de escritos antigos com poucos elementos comparativos para a verificação de veracidade de sua essência. (Alguém questiona?)
Quanto à Bíblia:
- Antigo Testamento: textos dos Massoretas (copistas judeus da Idade Média), comparados com manuscritos encontrados em outras regiões e de tempos diferentes, com a mesma essência (“escritos do Mar Morto’, Qunran).
- Novo Testamento: diversos manuscritos com o mesmo conteúdo, de tempos e locais distintos.
Tanto Novo quanto Antigo Testamento estão em harmonia entre si. Textos do Antigo fazem referência ao que havia de vir (NT) e, em diálogo com o passado, o Novo Testamento faz menção ao Antigo e lança luz, apresentando o seu cumprimento.


IX. A regra infalível de interpretação da Escritura é a mesma Escritura; portanto, quando houver questão sobre o verdadeiro e pleno sentido de qualquer texto da Escritura (sentido que não é múltiplo, mas único), esse texto pode ser estudado e compreendido por outros textos que falem mais claramente.

At. 15:15-16; João 5:46; II Ped. 1:20-21.

            Sola Scriptura – Somente a Escritura.
Tota Scriptura – Toda a Escritura.
Analogia Fidei – Analogia da Fé: utilização de texto da própria Escritura que lança luz sobre texto mais complexos da própria Escritura.
Tem um só sentido, pois a interpretação deve ser feita “conforme o legislador”, ou seja, o que se pode e se deve entender é justamente o que se quis dizer à época em que foi escrito, o que o próprio Deus tem a intenção de revelar.
“O sentido não é múltiplo, é único” - escolas hermenêuticas: Patrística (Alexandria – Grega X Antioquia – Latina).
Escola de Alexandria: Alegorizava, ou seja, utilizava-se de paralelos para explicar o sentido do texto, não tinha um compromisso com o sentido que o próprio Deus dava ao texto (que é o Autor).
Escola de Antioquia: buscava o sentido literal do texto, original. Nós, reformados, somos herdeiros desta tradição, pois nosso interesse é saber o que Deus quer dizer com o texto. Um dos principais expoentes dessa corrente de pensamento é Agostinho de Hipona (apesar de alguns lapsos alegóricos, era essencialmente literal).

Quadriga – (método de interpretação utilizado na Idade Média) todos os textos deveriam ter: sentido original, comparativo (alegoria), moral e celestial. Vale lembrar que nem todo texto possui todos estes sentidos, ou seja, por vezes “forçava-se” a interpretação para que atingisse os quatro critérios.
Reforma – sentido literal (método histórico-gramatical), Porém, também reconheciam que certas passagens da Bíblia apontavam para além de si, quando o gênero gramatical e o propósito histórico do texto deixam isso claro: há linguagem figurada, profética, apocalíptica, pregadores usam alegorias ou parábolas, porém, todas as partes da Bíblia devem conversar entre si (harmonização).


X. O Juiz Supremo, pelo qual todas as controvérsias religiosas têm de ser determinadas e por quem serão examinados todos os decretos de concílios, todas as opiniões dos antigos escritores, todas as doutrinas de homens e opiniões particulares, o Juiz Supremo em cuja sentença nos devemos firmar não pode ser outro senão o Espírito Santo falando na Escritura.

Mat. 22:29, 3 1; At. 28:25; Gal. 1: 10.


Retoma a ideia do ponto VIII, combinado com o V.
Há controvérsias religiosas, decretos de concílios questionáveis, opiniões de escritores de peso (antigos ou atuais) que são duvidosas? Há regra geral, sentença que é emanada do Supremo Juiz, o Espírito Santo, que fala em Sua Palavra.
            A Confissão de Fé de Westminster se coloca como alvo de tais análises.